Todo dia, a gente mesmo
Martha Medeiros
Estou muito acostumado comigo. Acostumada a acordar tão cedo que passo a dia com o olho meio machucado, preferindo que as coisas não exijam ser vistas. E me acostumei, por causa disso, a sentir sono em horário de criança, são meus filhos que me botam na cama, apagam a luz e me dão um beijo de boa-noite.
Me acostumei com o gosto das minhas unhas e das minhas cutículas, pequenos lanches sem caloria. Estou acostumada com meu tom de voz quando atendo o telefone e do outro lado está alguém por quem sinto saudades, e me acostumei com minha voz burocrática quando do outro lado há alguém que sei que vai me ocupar um tempo que não tenho disponível, não para alegorias.
Estou tão acostumada comigo que esqueço dos trajetos que faço pela casa: eu estava na cozinha, em seguida estou no computador, e quando dou por mim estou em frente ao espelho do banheiro, escovando os dentes quando já nem lembro o que almocei. Trilho pela casa com os mesmos passos, com o mesmo desassombro diante dos móveis e dos quadros.
Quando procuro um disco, olho para todos os nomes nas laterais dos CDs e é como se eu não enxergasse nada, são nomes tão familiares impressos nas capas: Ben Harper, Elvis Costello, Fernanda Abreu... Não guardo nada em ordem alfabética, estou acostumada a não encontrar o que quero porque durante a procura eu mudo de ideia.
Quando tomo banho, o sabonete parece um ônibus que todo dia faz o mesmo percurso, não há originalidade no traçado do mapa, eu obedeço o hábito, todos os dias, as mesmas partes, na mesma ordem, os mesmos gestos embaixo d’água.
Estou tão acostumada comigo que tenho um rosto pronto para as fotografias e nenhum para o espanto, coloco e retiro o meu anel várias vezes e coço sempre a mesma área do braço, uma coceira de estimação que nem coça de verdade. Me acostumei com o minuto exato que vem o espirro, sempre quando abro a gaveta do armário que guarda a poeira de outros invernos.
Acostumei com elogios e ofensas, tudo bate e rebate, frescobol de palavras, mas me acostumei a sorrir mesmo assim, que outro jeito não conheço. Estou tão acostumada comigo que nem percebo que para os outros sou estranha, objeto de opiniões, as contrárias e as melhores. Adivinho os meus erros e os acertos, o que vai me comover ou me irritar, e o costume é tanto que até dos outros adivinho a reação.
Estamos tão acostumados com a gente mesmo que nem prestamos mais atenção.
Domingo, 27 de abril de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.